O Sapateiro Sem Sapatos | Por que criar para si mesmo é a tarefa mais difícil de todas

Existe uma ironia cruel que acomete quase todo profissional criativo em algum momento da carreira: quanto mais você sabe fazer, menos você faz para você. O designer que produz identidades visuais impecáveis para dezenas de clientes, mas cujo portfólio pessoal tem a última atualização de 2019. O músico que compõe para campanhas, novelas e festivais, e nunca termina o próprio álbum. O diretor teatral que estreia produção atrás de produção e adia há três anos escrever a peça que realmente quer escrever. Não é preguiça. Ou pelo menos não é isso.

O problema do espelho sem moldura

Quando você cria para um cliente, para um projeto, para um prazo, existe uma estrutura externa que organiza o trabalho. Há um briefing, uma expectativa, um outro. O esforço tem destino. Quando você cria para si mesmo, o destino é você e aí o terreno fica instável. Porque criar para si é, no fundo, um ato de autodefinição. O portfólio não é uma vitrine de trabalhos: é uma declaração de quem você é. E ninguém adia a arrumação de uma gaveta tanto quanto a gaveta que contém a própria identidade.

Há algo quase filosófico nisso. Sartre diria que a angústia da liberdade total paralisa e o portfólio pessoal é exatamente isso: liberdade total. Nenhum cliente para dizer não. Nenhum prazo para disciplinar. Nenhuma voz externa para obedecer ou contrariar. Só você, diante do cursor piscando, perguntando: mas o que eu, de fato, quero dizer?

O trabalho invisível do trabalho visível

Tem outro fator que pouca gente nomeia com clareza: o cansaço cognitivo de ser criativo por encomenda.

Criar conteúdo para os outros não esgota só o tempo esgota o modo criativo. Você sai de um dia de trabalho tendo tomado centenas de pequenas decisões estéticas, narrativas, técnicas. E quando chega a hora de sentar para alimentar o próprio projeto, o tanque está vazio. Não porque você seja preguiçoso. Porque você já foi criativo só que para outro endereço. É como pedir para um cozinheiro que trabalhou doze horas num restaurante que volte para casa e prepare um jantar especial para si mesmo. A vontade pode até existir. A capacidade, naquele momento, não.

A armadilha da perfeição sem testemunha

Quando ninguém está esperando, o padrão interno sobe de forma absurda. Para o cliente, o bom o suficiente existe. Para si mesmo, raramente. O artigo pessoal precisa ser o definitivo. O post do portfólio precisa representar quem você é hoje, mas quem você é hoje muda enquanto você escreve, então nunca está pronto. O projeto pessoal acumula versões salvas como rascunho até que o próprio arquivo vira um arquivo de vergonha.

Há uma crueldade particular nisso: quanto mais habilidoso o profissional, mais alto o padrão interno, mais paralisante a expectativa de si mesmo. A competência vira inimiga da produção pessoal.

Então, o que fazer com isso?

Não tenho uma resposta redonda. Mas tenho uma suspeita. Talvez a saída não seja encontrar motivação para criar para si mesmo motivação é volátil, não é estrutura. Talvez seja reconhecer que o conteúdo pessoal, o portfólio, o projeto próprio, precisam ser tratados com a mesma generosidade que você trata o trabalho do cliente. Generosidade no prazo. Generosidade no padrão aceitar o incompleto, o imperfeito, o em construção. Generosidade na atenção reservar para si o mesmo horário, a mesma energia que você reserva para os outros.

O sapateiro sem sapatos não é um fracassado. É alguém que esqueceu que também tem pés. E pés, eventualmente, pedem atenção.

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